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Um riacho que vira mar...

Elder, meu amigo, tu, morador da Mantiqueira que és, já deves ter observado esses olhinhos d´água que brotam no meio do mato, pequeninos, silenciosos e que vão, miudinhos, descendo e rompendo caminho por entre folhas e galhos caídos. Vão criando um sulco no chão, qual um eito. Este caminhar incessante e determinado encontra barreiras ante às quais calmamente para e vai se enchendo de si próprio. E de baixo pra cima, de dentro pra fora, cresce e supera o que o represara fazendo esta conquista se incorporar ao seu caminho. Outras aguinhas vão se juntando a este curso d´água que ao seguir vai crescendo e tornando-se caudaloso. Chega uma hora em que já tem voz para cantar por entre as pedras viventes no leito que ele mesmo fora escavando. Adiante ele vai; sempre crescendo, aumentando a sua voz, as suas paisagens internas e os seus sons cada vez mais múltiplos, num contraponto infinito e renovado a cada instante.

Dentro dele, vidas vão se criando... insetos, algas, peixes e toda ordem de seres que amam o rio e suas águas.

Pois assim eu te vejo, meu amigo. Como se eu pudesse olhar de muito alto a ponto de perceber o curso do tempo num só instante. Me lembro do Elder olho d´água nos anos 1980, junto ao grupo Vaiados na Vendinha, que rapidamente fez-se riacho. Tua verve de criador sempre existiu. Esta foi se burilando música a música em forma e estilo que querias em cada momento. Nos anos 1990, já corrias trecho por este Brasil como solista ou acompanhando artistas de renome, e tuas águas já fluíam com força. Foram assim se formando muitos caminhos, muitos encontros com outras águas, águas parceiras, águas poetas.

Pois hoje te vejo virando mar e ao mesmo tempo voltando a ser olho d´água, sempre pronto a se reinventar. Os frutos de teu leito-estrada já abastecem o coração dos que de ti bebem, ora escutando-te, ora aprendendo com teus acordes, ora cantando as tuas belas melodias carregadas de mensagens escritas pelos teus rios-poetas que nos enchem de um outro olhar para o mundo, olhar mais sensível, mais suave. Esse disco me traz a certeza de que teu apuro como músico não tem fim. Sempre com novas histórias e com um violão cada vez mais denso. Essas tuas harmonias me espantam... são inusitadas! Na hora que pensamos que sabemos onde pretendes chegar, nos surpreendes com um sobressalto, e o curso melódico-harmônico da música muda, mostrando um novo caminho, uma nova paisagem, uma nova alegria... a alegria de sermos surpreendidos e com isto crescermos.

Elder, te reconheço como um grande compositor. Compositor não deve ter estilo, deve compor de tudo, afinal é isto que esse nome indica: diversidades. A maneira como te aproprias do congado, do choro, da balada e de tantos outros estilos composicionais neste disco mostra o caudaloso rio que tornaste.

Quando junto ao Madhav dizes: "Sou meio lá, meio cá, carrego o laptop no ´mborná..." É isso! Tuas águas musicais agora se espraiam de braços abertos a tudo o que teu olho vê e teu coração sente.

Este disco é uma obra que ficará como mais um marco do quão importante é a tua presença entre nós a nos ensinar, a nos iluminar e a nos acalentar com a tua Música.

"E quem acha que num segundo
Não cabe a vida da gente
Que tire um segundo do mundo
E a história será diferente"

Teu devoto admirador,

Ivan Vilela